• Elisa Lempek

A quarentena acabou, e agora?



Me disseram que após a quarentena eu seria "liberada" para retomar minha vida sexual e voltar a ter uma "vida normal".

Mas, cadê a vida que eu tinha antes? Ou a vida que eu imaginei ter após a chegada do bebê? E a vontade/disposição para o sexo? E esse desconhecimento sobre eu mesma? Sobre meu corpo, meus desejos, minhas próprias necessidades? E o que fazer diante das minhas expectativas não realizadas, das minhas frustrações e decepções?

Sim, estou feliz com a chegada do meu filho, mas não necessariamente com tudo que a maternidade me trouxe.

Alguma coisa está errada. Será que é só comigo?

Essa é uma questão bastante comum no relato de muitas mães durante o puerpério, seja no consultório, num grupo de mães ou círculo de amigas. Inclusive, foram meus próprios questionamentos.

Já falei aqui sobre o conceito de puerpério que eu costumo trabalhar:

O puerpério pode ser compreendido como um período de pausa, de reflexão, de desconstrução e desconexão para conectar-se novamente de forma mais plena e profunda, após a chegada do bebê. Durante este período é comum vivenciarmos um turbilhão de emoções, sentimentos e pensamentos que podem variar na frequência, duração e intensidade, sendo diferentes em cada mulher e a cada nova gestação, e que pode repercutir também em outros membros da família que compartilham dessa experiência de alguma forma. Trata-se de um processo de transição, de encontro ao novo, ao desconhecido e que pode levar tempo. O processo emocional do puerpério é diferente para cada nova mãe e pode durar ATÉ DOIS ANOS. Permitir-se sentir e elaborar todo esse processo, com consciência e entendimento faz toda a diferença na construção dessa nova identidade.

Partindo desse conceito, como podemos esperar que a nossa vida "volte ao normal" dentro de 40 dias. Onde aprendemos sobre isso? De onde vem essa expectativa? Aliás, o que seria uma vida normal quando o antes dizia respeito apenas a nós e agora também inclui um bebê? Que lugar estamos oferecendo a essa criança em nossa vida? Que lugar estamos oferecendo a nós mesmas enquanto mulheres na construção de um novo papel?

Quando poderemos retomar a nossa vida sexual? Quando poderemos sair sem o bebê? Quando poderemos retomar nossa vida social? E profissional? Esses e tantos outros questionamentos dizem respeito ao processo de cada uma de nós, cada uma incluída num contexto muito singular também. Não há respostas prontas. Mas há diante de nós uma oportunidade ímpar de repensar nossas prioridades, ajustar nossas expectativas e redefinir as nossas escolhas e caminhos a seguir, agora não apenas por nós mesmas, mas ao encontro de uma criança que chegou para também nos ensinar algumas coisas e nos transformar.

O quanto estamos dispostas a também encarar um mundo novo, totalmente desconhecido e um tanto inesperado?


Vamos refletir?


Com carinho,

Elisa Lempek

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