• Elisa Lempek

Adaptação familiar com o nascimento do segundo filho

Atualizado: 12 de Jun de 2018


A chegada de um novo membro a família pode gerar um aumento na tensão familiar, pois traz consigo a necessidade de uma reformulação nos papéis de cada um de seus membros e nas suas regras de funcionamento (Minuchin, 1985).


O nascimento do segundo filho é um evento marcante no desenvolvimento da família e que pode gerar uma maior instabilidade no funcionamento do sistema familiar como um todo onde cada membro (pai, mãe e primogênito) e suas relações poderão ser afetadas de modos distintos.


No desenvolvimento da família, o casal precisa assumir o papel de pais de dois e o primogênito assume o papel de filho mais velho, e não mais de filho único. Essa mudança de papeis traz uma necessidade de ajustes para todos.


Relacionamento do primogênito com o novo bebê


O nascimento de um irmão provoca grandes mudanças na vida do primogênito que passa a conviver com um novo integrante na família que pouco interage com ele e exige grande atenção dos pais. Após o nascimento do irmão, o primogênito pode mostrar sinais de descontentamento ao mesmo tempo em que demonstra carinho e interesse pelo bebê. Por demonstrar carinho e interesse pelo bebê pode ocorrer dos pais não perceberem suas necessidades de atenção e confirmação do amor que é o que toda criança acaba buscando, inclusive através do que nós costumamos chamar de mau comportamento. O mau comportamento, na maioria das vezes, é uma forma de comunicação equivocada que a criança usa para receber a atenção dos pais e se sentir importante. Compreender esses sinais, sem julgamento, com empatia e amor é muito importante para acolher as necessidades da criança e ajudar ela a lidar com determinadas situações, emoções e sentimentos.


Entre os sinais de descontentamento do primogênito, pode ocorrer mudanças comportamentais como aumento das exigências aos pais (especialmente à mãe), comportamento mais dependente, fala infantilizada (imitando bebê), mais pedidos de colo, choro mais frequente, retrocesso na alimentação, problemas relacionados ao sono, agressividade ou introversão, entre outros. Entretanto, há uma tendência de que o primogênito vá retornando aos comportamentos anteriores à chegada do irmão de forma gradual. É importante saber que tanto o início desses sintomas quanto a diminuição deles podem ocorrer a qualquer momento após a chegada do bebê, ou até mesmo durante a gestação.


De acordo com a literatura, crianças de 1 a 6 anos tendem a reagir mais negativamente ao nascimento de um irmão quando comparadas a crianças de 6 a 12 anos que possuem habilidades sociais e cognitivas mais desenvolvidas para entender e tolerar as mudanças familiares em períodos de transição. Porém, independente da idade, é importante ter um olhar acolhedor para essas crianças, pois este é um momento importante no seu próprio processo de desenvolvimento, como eu mencionei anteriormente sobre a necessidade de confirmar o amor dos pais, assim como para a construção de um bom vínculo entre irmãos.


O risco de haver ciúmes entre irmãos é uma preocupação bastante comum quando a família resolve ter outro filho, mas é importante compreender que a cooperação entre os irmãos pode ser um resultado tão provável quanto a competição, e isso vai depender muito mais da maneira pela qual os pais se relacionam com os filhos do que necessariamente da relação entre as crianças.


Relação dos pais com os filhos


A chegada de mais um bebê muda a relação dos pais com cada um dos filhos que exigem a redistribuição da atenção entre eles. Essas mudanças podem ocorrer em um nível comportamental como em qualidade do tempo disponível, frequência de tempo juntos e padrões de relação, quanto em relação às percepções e emoções, modificando a forma de interação. É natural mudar a forma de relação, assim como coexistirem emoções e sentimentos conflitivos em relação aos filhos, entre o próprio casal e a nova experiência de parentalidade. Reconhecer essas emoções e sentimentos é muito importante para a construção de uma relação familiar saudável.


O amor que sentimos pelos filhos é diferente, pois, são crianças diferentes e nós também somos diferentes desde que o primeiro filho chegou. É importante não ficar preso a uma ilusão de oferecer a ambos as mesmas coisas, até porque as necessidades de cada um também são diferentes. Com a chegada do segundo filho nós temos a oportunidade de conhecer as variações do amor e de outros sentimentos, assim como aprender a harmonizar esses sentimentos de um jeito único para cada um deles.


É comum os pais sentirem a necessidade de equilibrarem a atenção dedicada a ambos os filhos e é saudável para todos quando ocorre um compartilhar entre as funções. Em alguns momentos, a mãe fica com o bebê e o pai com o primogênito e em outros momentos a mãe fica com o primogênito e o pai com o bebê. Dentro de uma dinâmica possível para a família, esse movimento pode favorecer a todos.


A necessidade de equilibrar a atenção também pode ocasionar a diminuição de investimentos em outras relações e atividades familiares como no relacionamento conjugal que fica, temporariamente, em segundo plano, exigindo do casal um diálogo sincero sobre as necessidades de cada um, assim como novas estratégias para fortalecer a relação.


A relação da mãe com o primogênito pode ser afetada a um nível mais profundo desde a gestação assim como diante das exigências de um recém-nascido, causando uma diminuição na interação mãe/primogênito, na atenção dedicada com exclusividade e no tempo que ocupavam nas brincadeiras. Ao mesmo tempo, é comum haver um aumento nos enfrentamentos mãe/primogênito, de proibições e repreensões da mãe, especialmente em função do seu esforço para equilibrar a atenção dedicada aos filhos que acaba causando uma maior sobrecarga e menos paciência com o primogênito. Estes fatores podem contribuir para uma maior proximidade do primogênito com o pai, sendo esta uma estratégia positiva de distribuição da atenção parental, aliviando a sobrecarga da mãe e ajudando o primogênito nesse período de transição. Pode ocorrer também da mãe se preocupar tanto em continuar se relacionando da mesma forma com o primogênito que acabe tendo dificuldades na construção do vínculo com o bebê. É importante ter atenção a esses dois extremos e buscar ajuda profissional caso perceba-se dificuldades nessas relações.


O reequilíbrio na distribuição de atenção aos filhos se torna uma das principais tarefas da família diante da chegada do segundo filho, entretanto, outras questões também precisam ser redefinidas, como a divisão de tarefas domésticas e outras responsabilidades, que devem ser compartilhadas, assim como os momentos de intimidade do casal, que também ficam comprometidos por um período.


Relacionamento do casal


Nos primeiros meses de vida de um bebê, seja ele o primeiro, segundo, terceiro ou mais, o casal deve voltar sua atenção quase que exclusivamente para os cuidados da criança e esse processo é essencial para a formação do vínculo e a construção dos papéis de pai e mãe. Nesse período, entretanto, pode ocorrer uma diminuição na satisfação conjugal em função da redução do tempo disponível para o investimento na relação a dois ou, por outro lado, um crescimento da parceria e do companheirismo, fortalecendo o relacionamento. Tudo dependerá da capacidade do casal para enfrentar e superar essas mudanças. Com mais de um filho, essa parceria é fundamental e pode garantir uma melhor transição de fase para todos.


Muitas pesquisas indicam que essa transição pode ser melhor compreendida e elaborada se antes mesmo da chegada dos filhos os parceiros estiverem satisfeitos com seu relacionamento, pois, o ajustamento conjugal, as formas de comunicação e as estratégias de resolução de conflitos utilizadas pelo casal influenciam tanto a própria relação, quanto o relacionamento de cada um com os filhos. Uma vida conjugal insatisfatória pode causar prejuízos diretos e indiretos tanto para os cônjuges quando para os filhos. Ou seja, os cônjuges precisam nutrir seu casamento para garantir a harmonia familiar, pois, há risco de desgaste em uma relação quando pai e mãe negligenciam a importância de cotidianamente viverem como casal.


Para enfrentarem esse período de desafios e mudanças, pequenos gestos no dia-a-dia podem contribuir para preservar e cultivar a relação como a divisão equilibrada de tarefas e responsabilidades, demonstrações de afeto e gentileza, carinho e cumplicidade, e intenção e vontade de fazer o bem ao outro. Trata-se de aproveitar as pequenas oportunidades da nova rotina para reinventar a relação a dois.


Para finalizar, embora todas essas mudanças possam vir acompanhadas de algum grau de ansiedade e instabilidade, também mostram a capacidade adaptativa dos membros da família, assim como a força do sistema familiar, unindo ainda mais os seus membros quando as adaptações são realizadas de forma conjunta, com apoio e amor.


Com carinho, Elisa Lempek



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