• Elisa Lempek

O que se perde quando se ganha um bebê?




O que se perde quando se ganha um bebê? Essa pergunta pode causar um certo estranhamento, pois, em nossa cultura, quando uma mulher está a espera de um bebê ou logo após a sua chegada, é de certa forma estimulada a falar apenas sobre os ganhos que a maternidade traz. Entretanto, sabemos que toda escolha implica perdas e ganhos e não é diferente em relação a ter um filho. Acontece que é tão comum falarmos sobre o que ganhamos com a maternidade que dificilmente encontramos espaço, escuta e acolhimento para falarmos e elaborarmos as nossas perdas e esse processo é muito importante para que possamos vivenciar uma maternidade mais consciente, leve e satisfatória.


Ao longo do texto eu vou trazer alguns temas para reflexão referente a perdas do pós parto. Mas, antes de começar, quero compartilhar o trecho de um livro de Judith Viorst com o título Perdas Necessárias. Não utilizei esse livro como embasamento para a construção desse artigo, mas alguns pontos que a autora traz são muito apropriados para compreensão do termo "perdas" a que me refiro aqui.


"Quando pensamos em perda, pensamos na morte das pessoas que amamos. Mas a perda é muito mais abrangente em nossa vida. Pois perdemos, não só pela morte, mas também por abandonar e ser abandonados, por mudar e deixar coisas para trás e seguir nosso caminho. E nossas perdas incluem não apenas separações e partidas dos que amamos, mas também a perda consciente ou inconsciente de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança..."

(VIORST, Judith)


Faz sentido pra você? Vamos começar?


#1 O bebê idealizado Durante a gestação, é comum imaginar como será o bebê. Este bebê imaginado é o bebê ideal, aquele que atende as nossas expectativas. Entretanto, após o parto, entramos em contato com o bebê real, um bebê ainda desconhecido, um bebê que pode gerar estranheza, especialmente por não corresponder ao bebê ideal. O bebê que nasce não é o mesmo bebê que a mãe gestou. Sendo assim, é natural e esperado que a mãe sinta pela perda do bebe ideal, o bebê imaginado. Na nossa cultura, entretanto, não é permitido que a mãe possa expressar emoções e sentimentos de estranheza em relação ao seu filho, porém, esses sentimentos são normais nesse período e a mãe precisa sentir-se acolhida e compreendida (e não julgada) para que possa elaborar a perda do bebê ideal e construir o vínculo com o bebê real. É a partir do nascimento que a mãe vai conhecer o seu bebê e construir uma relação com ele. Para isso, mãe e bebê precisam de tempo, espaço e privacidade. Respeitar essas condições é fundamental para apoiar a nova mãe nesse processo de elaboração.

#2 A posição exclusiva de filha

Quando uma mulher se torna mãe, a sua mãe se torna avó e a inauguração desses novos papéis (de filha para mãe e de mãe para avó) pode gerar um sentimento de perda, perda da posição exclusiva de filha, pois, a partir da chegada do bebê, uma nova relação entre mãe e filha precisa ser construída. Tanto a nova mãe quanto a nova avó não sabem exatamente como é ocupar esses novos papéis e quais ajustes na relação de ambas são necessários. Em função disso, pode haver um certo estranhamento na relação até que esses novos ajustes sejam realizados, o que deve ocorrer com o tempo e a convivência. Esse processo pode ocorrer de forma tranquila ou conflituosa, o que vai depender da relação que havia anteriormente entre mãe e filha, das questões que podem emergir a partir da inauguração desses novos papéis e da disposição de ambas à construírem uma nova relação. Para que essa nova relação se estabeleça de forma positiva, o diálogo é fundamental, especialmente para externalizar emoções, sentimentos, necessidades, expectativas e frustrações decorrentes dessa nova fase no ciclo de desenvolvimento familiar, onde cada geração avança um passo, entrando numa zona ainda desconhecida, mas com um potencial de crescimento e amadurecimento para todos.


#3 Vida Social

O pós-parto é um período dedicado para a construção do novo papel de mãe e os cuidados ao bebê, o que vai exigir privacidade para a intimidade. Além disso, em função dos cuidados recomendados ao recém-nascido como evitar saídas de casa nos primeiros meses, evitar aglomerações e lugares fechados assim como ter moderação nas visitas, a mãe pode se sentir enclausurada na própria casa, e sozinha. A diminuição da vida social pode gerar muita angustia na nova mãe, especialmente se ela tinha uma vida mais ativa fora de casa. O luto pela perda da vida social é um luto difícil e os sentimentos de solidão são muito comuns e exigem uma atenção especial, pelo risco aumentado no desencadeamento de transtornos psíquicos como a depressão pós-parto. Depois de passar os primeiros meses, pouco a pouco, a vida social pode (e deve) ir sendo retomada e reconstruída. Algumas relações podem ser revistas e, novamente, serem percebidas como perdas, quando, por exemplo, a nova mãe se dá conta que antigas amizades não correspondem a sua nova etapa no ciclo de desenvolvimento familiar, agora como mãe. Por outro lado, novas relações podem ser construídas, justamente a partir dessa nova etapa de vida, através da união com grupos de iguais. Além disso, é comum haver uma maior aproximação com as famílias de origem do casal, fortalecendo os vínculos familiares. E, conforme o bebê vai crescendo, a nova mãe vai criando sua rede de apoio e podendo também retomar outros papeis e atender outros desejos e necessidades, para além da maternidade.

#4 Corpo anterior

Esse é um luto pouco reconhecido e valorizado na nossa sociedade, e algumas vezes até banalizado, entretanto, a perda do corpo anterior à gestação é uma perda real e que também precisa ser elaborada para que a nova mãe possa sentir-se confortável consigo mesma. O corpo do pós-parto não é o mesmo corpo anterior a gestação e não teria como ser diferente, afinal, esse corpo gerou uma vida e está passando por um processo de transição. Durante esse período de transição é importante que a nova mãe se reconheça nesse novo corpo e se aceite, dentro de seus limites, mas também considerando as suas novas possibilidades, afinal, esse corpo (ainda desconhecido) pode se tornar um corpo ainda melhor, com mais potência e vitalidade que deverá acompanhar o crescimento e desenvolvimento dos filhos.  #5 Vida Sexual


As mudanças na vida conjugal e sexual começam a acontecer desde a gestação e podem ser percebidas como perdas bastante significativas no pós-parto, especialmente quando o assunto é tempo para o casal e sexo. Depois do parto, a prioridade é a construção do vínculo com o bebê, assim como garantir a sua sobrevivência e pleno desenvolvimento. Cuidar de um bebê, especialmente recém-nascido, demanda tempo e muita dedicação, além disso, é uma atividade que exige muita atenção, investimento físico e mental. Nesse período é comum haver privação do sono, alimentação irregular, cansaço, fatores que contribuem para diminuir a libido e até mesmo o interesse por sexo. É importante compreender que após a chegada do bebê o foco do casal está na construção dos seus papéis enquanto pai e mãe e que é natural que o investimento na vida a dois fique em segundo plano. Entretanto, gradualmente, o casal deve voltar a investir na sua vida conjugal e sexual, priorizando também a reconstrução desse espaço, que também é um novo espaço, afinal, o casal de antes da gestação não é o mesmo casal após a chegada do bebê, portanto, a vida conjugal e sexual também deve ser reinventada! Elaborar a perda da vida conjugal e sexual anterior, assim como ajustar as expectativas e criar um tempo para reinvestir na vida a dois é fundamental para que o casal se reconheça, se reencontre na nova dinâmica familiar e se reconecte para viver uma nova relação (conjugal e sexual) com mais qualidade e satisfação.


Para concluir, é importante saber que nem todas as mulheres vivem essas experiências como perdas e que cada mulher pode vivenciar essas ou outras perdas em diferentes momentos ao longo da sua experiência materna. Finalizo com mais um trecho de Judith Viorst que, para mim, serviu de inspiração para a escolha desse assunto.


"Olhar para as perdas é ver como estão definitivamente ligadas ao crescimento. E começar a perceber como nossas respostas às perdas moldaram nossas vidas pode ser o começo da sabedoria e de uma mudança promissora" (VIORST, Judith)


Com carinho,

Elisa Lempek


Referência do livro citado no texto: VIORST, Judith. Perdas Necessárias. 4 ed. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2005.

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